Ana Lira
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Enviada: Sáb Out 24, 2009 3:03 pm Assunto: Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro |
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Lugar de Discussão
Gabriel Mascaro debate perspectiva dos moradores de coberturas em Um Lugar ao Sol
Por: Ana Lira
O documentário é um gênero cinematográfico surpreendente, ainda mais quando nos coloca diante de reflexões que no cotidiano evitamos aprofundar. Os setenta e um minutos de Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, se mostra como um desses momentos de ponderar sobre as relações que as pessoas estabelecem com as outras, entre si e com a cidade em que vivem, a partir do lugar em que moram. No caso do filme de Mascaro esse lugar são apartamentos de cobertura de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.
O cineasta estava com vinte e um anos, em 2006, quando se deparou com um guia que mapeava 125 moradores de cobertura que integravam a elite brasileira ou eram considerados influentes na sociedade do país. Este livro abriu caminhos para a busca dos nove entrevistados que concordaram em receber a equipe do longa-metragem, em seus apartamentos, para falar sobre a perspectiva de quem mora nos pontos mais altos dos edifícios e dos desdobramentos que isso pode gerar no imaginário social.
Para conseguir o resultado apresentado no documentário, a equipe optou por não criar uma relação de intimidade prévia entre o diretor e os entrevistados, de modo que Mascaro conheceu as pessoas que entrevistaria apenas no momento exato da gravação. Essa estratégia, às vezes, pode trazer para o filme acontecimentos inesperados que colocam diretores à prova, mas que podem ser incorporados como peças importantes para o desenvolvimento da narrativa. Os casos mais conhecidos do documentário nacional está nas obras de Eduardo Coutinho, que tem em um dos seus mais clássicos exemplos o final de Peões, quando o diretor se vê interrogado pelo entrevistado de uma forma sincera e o filme termina com um longo silêncio.
Um Lugar ao Sol também tem os seus momentos de desconcerto e muitos fragmentos de discurso que ressoam mais que falas milimetricamente construídas para convencer o público. É no acaso, na conversa informal, que Mascaro vai colhendo pensamentos e intenções que nos dizem muito sobre as escolhas que estamos fazendo enquanto sociedade e algumas das contradições que essas decisões implicam. Qualidade de vida, convivência, poder, segurança, urbanização, organização pública, participação social, preconceito, transcendência, entre outros temas chegam até o público por meio da câmera às vezes atenta e segura outras vezes inquieta do diretor, que explicita as tensões que marcam o filme.
Depois de Retrato de Classe, de Gregório Bassit, documentário produzido e exibido em rede nacional pela Globo, em 1977, o filme de Mascaro é um dos poucos que se debruçam sobre um grupo social considerado de elite e que não é muito discutido em documentários no país – embora esteja muito bem representado em outros segmentos visuais, como as telenovelas e as campanhas publicitárias. Neste sentido, Um Lugar ao Sol tem um papel importante por propor uma reflexão que vai além de uma tese sobre uma determinada classe social e coloca entrevistados, equipe de filmagem e público em uma grande roda de discussão.
O filme teve lançamento ontem na Janela Internacional de Cinema do Recife, na Fundaj e foi exibido no mês passado na Semana dos Realizadores do Festival de Cinema do Rio de Janeiro. A próxima exibição será em Minas Gerais. |
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