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O Grito dos Excluídos questiona a independência do Brasil A décima quinta edição do evento protesta contra a situação do país e clama pelo vida em primeiro lugar
Por: Marcelle Honorato (texto) e Ana Lira (Fotos)
O sete de setembro parecia que não ia vingar. A Praça Oswaldo Cruz, no bairro da Boa Vista, estava quase deserta. Até o carro de som não estava ligado quando o dia da independência começava. Em compensação, perto do local três viaturas do Batalhão de Choque já estavam de prontidão. A concentração do 15º Grito dos Excluídos, que trabalhou o tema Vida em primeiro lugar: a força da transformação está na organização popular, parecia contradizer toda uma tradição.
A chegada do novo Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, mudou, porém, a calmaria da ocasião. Foi a primeira vez que um arcebispo participou do Grito dos Excluídos, mas de acordo com Dom Fernando a atividade do arcebispado se insere nesse espaço. Sobre a importância de sua participação, Saburido comentou. “Sempre participei como bispo auxiliar e agora como arcebispo. O Grito é uma iniciativa da igreja. Foi a igreja que começou em 1995 durante a campanha da Fraternidade que teve como tema A Fraternidade e os Excluídos. A partir daí começou a fazer anualmente essa manifestação”, explica ele.
A história do Grito dos Excluídos é marcada por várias simbologias, a começar pelo o dia em que a passeata é realizada. Para os organizadores, a data deve ser vista não só como reverências à pátria, mas também como um momento de protestar e lutar pela cidadania e fazer com que todos possam desfrutar em igualdade de seu País.
“A independência só há para um pequeno grupo da sociedade, para Sarney e Companhia Limitada. Essa Independência não chegou para nós, maioria dos brasileiros. Por isso é que estamos aqui na rua. Estamos gritando para que todos tenham um salário digno, para que todos sejam respeitados, para que todos tenham direito à moradia digna, para que ninguém mais passe fome, para que todas as pessoas possam sonhar e viver felicidades. Se não houver isso não consideramos que o País está livre”, bradou uma das manifestantes em cima do carro de som.
Quando a passeata partiu em direção à Avenida Conde da Boa Vista, as mais diversas organizações se reuniram para levantar a sua bandeira. Uma delas era Neusa Batista, presidente do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas, que já existe há 20 anos. Quando perguntada sobre a importância da organização das trabalhadoras doméstica, profissão que muitas vezes não é reconhecida, ela respondeu: “O sindicato está aí para conseguir novos direitos. Por que direito não se reduz, se amplia e a sociedade nos nega isso. Nega os direitos, como o FGTS, por exemplo. Nós, domésticas, somos uma das categorias mais excluídas da sociedade e estamos lutando hoje por nossos direitos e igualar às outras categorias.”
Além de instituições, como sindicatos e organizações, o Grito dos Excluídos também foi o momento escolhido pelo aposentado Durval Góes para protestar contra o abandono da saúde e também sobre a situação dos aposentados no País. “É uma miséria. Só porque eu ganho mais um pouquinho do que um salário tem 5% de aumento. Deram 12% a quem ganha um salário e 5% para que ganha mais de um salário. Quem ganha mais de um salário não é rico não? Vive na miséria também", declarou ele. Em 2009, o Governo Federal concedeu um aumento de 5,92% para quem tem renda acima do mínimo, já para os que ganham o mínimo o aumento foi de 12,05%. Esse reajuste foi dado a quem não era aposentado do serviço público.
De acordo com os organizadores do evento, além de Seu Durval mais de duas mil pessoas se reuniram com o mesmo objetivo: protestar, dizer aos governantes que há muito ainda para fazer para que o bem-estar social seja conquistado. Em compensação, é importante destacar a participação dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada na contribuição para a construção da cidadania dos brasileiros. “Aqui está expresso a luta pelo aperfeiçoamento da democracia e da liberdade. Aqui estão movimentos sociais, manifestantes de organizações com poder de crítica e defendendo a perspectiva de um país melhor, mais justo, mais humano, mais fraterno”, analisou o vereador Marcelo Santa Cruz que participou da passeata juntamente com outros políticos.
A manhã ia terminando e o Grito dos Excluídos estava em seu ponto de chegada, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no bairro de Santo Antônio. Antes de finalizar o evento, os participantes deram as mãos, construíram uma grande roda e dançaram ao som de uma ciranda. O ato simbolizava a união e a força de cada integrante em uma atividade como essa. Em frente a mesma igreja de Nossa Senhora do Carmo, diversas pessoas sem casa viam curiosos a movimentação de tanta gente. Mulheres que estendiam suas roupas no muro da igreja e dormiam nas ruas. É, realmente, a luta não será pequena nem no sentido e muito menos em sua totalidade. _________________ Marcelle Honorato
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